15 de novembro de 2000. Data de um acontecimento que marcou a vida da comunidade portuguesa na África do Sul. Com muita frontalidade, sem confronto verbal, civilizadamente, sob a tutela do Fórum Português Contra o Crime – atualmente Fórum Português – esculpiu uma página de sangue frio, coragem e determinação.
A palavra de ordem era “Enough is Enough“, significando um grito do desespero, um pedido de socorro que ecoou na cidade capital da África do Sul. O objetivo era o de alertar, pedir ajuda contra a crueldade que se abateu sobre uma comunidade que sofreu as consequências dos processos criminosos desenvolvidos pelos agentes da violência.
Esta ação deixou perplexas as autoridades diplomáticas portuguesas que apesar da violência exercida contra a sua comunidade se remetiam a um silêncio conformista, imperdoável e desprezível.
O ‘rosto’ da marcha
Passados que estão vinte anos sobre essa marcha, o JM contactou, em Londres, com o ‘rosto’ da marcha, o sacerdote Carlos Gabriel, líder espiritual do Fórum Português Contra o Crime (FPCC).
Esta era uma personagem enfada para o poder político cujo objetivo era combater pelo direito à vida, o que fez sem esmorecimento ou temor durante a sua estadia na África do Sul, onde foi Reitor da Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Brentwod Park, Benoni.
Quem ouviu ou testemunhou as suas alusões estas não eram dissimuladas, eram sim, alusões ao crime. Pretendeu chamar a atenção do governo de então, da África do Sul, para a vaga de crimes que ceifaram a vida a centenas de portugueses a maioria da Ilha da Madeira.
Níveis inaceitáveis
Incentivado a recordar o dia 15 de novembro de 2000, o Padre Carlos Gabriel relembrou o dia em que mais de 15.000 pessoas, portugueses, sul-africanos e nacionais de outros países marcharam contra o crime que estava fora de controlo e havia atingido níveis inaceitáveis.
Com a mudança do Comissário da Polícia George Fivaz e a nomeação do já falecido Comissário Jackie Selebi, após a eleição de Thabo Mbeki em 1999, que sucedeu a Nelson Mandela, a insegurança aumentou assustadoramente.
Segundo o padre, o motivo que o fez organizar a marcha havia sido o ataque brutal que vitimou o casal Manuel e Catherine Araújo na madrugada do dia 21 de maio desse mesmo ano numa padaria no bairro de Daveyton.
“Esse funeral na Igreja Católica de St. Patrick’s, Benoni, deixou imagens demasiado vivas, inextinguíveis na minha mente para serem apagadas com a passagem do tempo”, disse.
Carlos Gabriel continua ‘ligado’ à África do Sul, comunidade que acompanhou durante 21 anos.
“Recebo as notícias boas, como casamentos, batismos, festas e eventos familiares, as menos boas – os funerais das pessoas com quem me relacionei e conheci e as más – as mortes violentas de portugueses que infelizmente não cessaram e continuam a consternar e a revoltar”, confessou.
*José Luís da Silva, correspondente em Joanesburgo (África do Sul)



