No discurso que silenciou as quatro centenas de pessoas que sobrelotaram a Casa da Madeira de Joanesburgo, ontem à noite em Alberton, Pedro Ramos deixou duas ideias muito claras: agora a Madeira precisa de gente e de mais investimento, depois de ter ultrapassado a crise pandémica, a partir da qual as dificuldades foram transformadas em oportunidades.
O governante madeirense falava durante o jantar de gala que assinalou o regresso das comemorações do Dia da Madeira à África do Sul. Pedro Ramos começou por cumprimentar as Comunidades em todo o mundo. “São motivo de orgulho para a Região e para o País. Hoje na Madeira homenageámos diversas personalidades pelos seus contributos relevantes, aqui e agora homenageio uma Comunidade inteira que está a fazer a diferença”, enfatizou o governante madeirense, repetindo passagens do Hino de Portugal e do Hino da Madeira que reflectem a postura da nossa emigração.
Pedro Ramos fez um breve resumo daquilo que experienciou nesta última semana, da Cidade do Cabo a Joanesburgo, passando por Pretória. E foi nessa sequência que associou a forma como a Madeira lidou e ultrapassou a crise pandémica com aquilo que também estão a fazer os emigrantes, designadamente na Casa da Madeira de Joanesburgo. “Portugal e a Madeira deram o exemplo, transformaram as dificuldades em oportunidades. É isso que também está a ser feito na Casa da Madeira em Joanesburgo.”
O secretário regional terminaria o seu discurso com uma mensagem fortíssima: “A Madeira está num rumo diferente”, anunciou. “Queremos passar de uma terra de emigração para uma região que precisa de imigração e de mais investimento.” Uma referência direta à conjuntura atual na Região Autónoma da Madeira, invadida por turistas e já com falta de mão-de-obra nalguns setores de atividade económica.
Conselheiro alerta
Chamado ao palco foi também o conselheiro da Diáspora Madeirense, José Luís da Silva. “Vivemos horas de incerteza fruto da violência criminal e da má gestão deste país de acolhimento”, descreveu, elogiando a “proximidade do Governo Regional” e a presença constante do embaixador Manuel Carvalho.
O conselheiro criticou as “guerrilhas levadas a cabo por grupos, grupinhos e grupelhos” na comunidade, que criam “clivagens desnecessárias”. Exortou depois o representante do Governo Regional da Madeira e o embaixador de Portugal na África do Sul a intervirem para normalização de duas situações escandalosas: a ausência da TAP e a não reposição dos depósitos “criminosamente roubados” a Emigrantes. José Luís Silva denunciou ainda uma situação num lar que no seu entender configura “tratamento negligente” a uma idosa portuguesa.

Por detrás do ‘renascimento’ da Casa da Madeira está Manuel Gonçalves Ferreira, ou ‘Manny Ferreirinha’ como é conhecido na comunidade, filho de pais oriundos da Ponta do Pargo e da Raposeira. Este empresário lidera o projeto Fórum Português, um movimento que se tornou conhecido no ano 2000 por altura de uma marcha contra o crime na África do Sul.
O Fórum Português, que se assume ‘voz da comunidade’, engloba eventos solidários e uma série de ações e iniciativas para ajudar quem mais precisa e elevar o nome de Portugal e dos portugueses.
Na memória de todos está o Festival Caravela que juntou mais de 30 mil portugueses e que Manny Ferreirinha quer reeditar já no próximo ano, embora em moldes totalmente diferentes.
Segundo revelou o CEO do Fórum Português ao JM, em 2023, o Festival Caravela será transferido para Alberton – prolongando-se entre os festejos do 10 de junho, na Casa dos Poveiros, e as celebrações do Dia da Madeira a 1 de julho na Casa da Madeira. O projeto engloba a vinda de vários músicos da Madeira e a dinamização de uma feira de empresas produtos portugueses.
“Quando estiverem a contribuir para o Fórum Português, todos estarão a contribuir parado futuro das nossas crianças”, exortou Manny Ferreirinha.
A Casa da Madeira de Joanesburgo iniciou “uma nova fase”, disse, por seu turno, o novo presidente Alberto Santo, um curraleiro que por várias vezes enfatizou as suas raízes, com notável orgulho. “Com a ajuda de todos vamos levantar esta casa”, promete o presidente. “O apoio do Fórum Português é fundamental por ser gente que se apoia uns aos outros”, descreveu. “Juntos podemos fazer tudo e vamos fazê-lo de forma diferente”, indicou Alberto Santo no discurso do jantar de gala. “Queremos a cultura de volta.”



